sábado, 20 de novembro de 2010

Mas que mistério?

- É mesmo - você diz, pensativo - ainda há mistério? - sorriu.
Seu sorriso ainda me encanta.
- Mistérios do Galeto Paulista? - rio - claro que não! - sorrio também e logo me aninho nos braços que você abriu para que eu chegue mais perto. Estamos sentados no chão do corredor da escola enquanto matamos a aula de português que você tanto odeia.
- Que sem graça, pô! Porque acabou meu mistério? - você exige saber, desse jeito meio autoritário de quem finge que manda em mim e que eu sempre obedeço.
- Ah sei lá! Acho que depois de tanto tempo, já não sei somente sobre seus interesses, como gostar mais de cachorro do que de gato, do Porco a qualquer time que haja por aí. Adora verde, faz coleção de camiseta de time de futebol... Sei que você adora música, toca guitarra... Prefere não só a beleza de uma garota, como também do conteúdo dela. Entendo seu comportamento em relação a qualquer situação. Uau, sei que você detesta menina chiclete, neurótica, ciumenta... Só não sei como você me atura! - rio.
- Como você é boba! Te aturo e aturo essas suas maluquices só porque te amo, ok? - você também ri.
- Ah, que lindo... - sussurro, deixo uma lágrimas escorrer pelo meu rosto. 
- Filha? - preocupação - Por que está chorando? - você me abraça forte.
- Será que eu mereço? Esse amor, esse carinho e essa amizade que nos une assim?
- Claro que sim. Sabe por que nossa amizade dá tão certo? - você não me deixa responder e segue - Porque nunca nos vimos mais do que como amigos.
- Verdade - sorrio - voltando ao assunto. Mas qual é o mistério, se eu não sei só sobre suas preferências, mas também o que você é?
 - Como assim? - você diz, franzindo a testa.
- Assim, ué... Sabendo que você pode ter mil atitudes e cada uma delas definiria um tipo de pessoa para você ser. Só que você pode ser todas elas sem se perder, sem perder sua essência. Entende? Sem deixar de ser esse cara que às vezes é homem, às vezes é gurizão. Esse cara que compreende ou pelo menos tenta compreender os outros - "Ou só eu?", acrescento mentalmente - Quem me ouve, quem me socorre... Quem sempre sai em minha defesa quando eu me ataco. Quem eu tenho certeza que brigaria com qualquer garoto para me defender se isso fosse preciso. Esse cara que sabe dar um humilhante pé-na-bunda de qualquer garota, mas se ela for "a tal" para você, você supera qualquer perspectiva minha e prova que pode ser um namorado romântico sem ser muito meloso, ao contrário do que eu sempre pensei de você. - enquanto falo, você desvia o rosto. Será que eu vi direito... Lágrimas? - Pai?
- Oi, melhor. - sim, é choro. Mesmo desviando o rosto, sua voz te entregou. 
- Poxa, deixa de ser fofo! - falo, puxando seu rosto para que você olhe para mim - Awn, não chora. Você sabe que é verdade.
- É incrível como você me conhece, só fico chocado com isso. - você volta a me abraçar, tão forte que quase me sufoca; até perceber minha falta de ar - Ops! - diz você com um riso.
- Credo - suspiro - Não se ofenda, mas às vezes acho que você é meio urso. - você segue rindo.
- Ah, que exagero - ainda rindo...
- Aham, quando você me matar depois de um abraço desse gênero, quero ver pra quem é que você vai contar tudo o que você me conta, ok? - digo, cruzando os braços, mostrando a língua e indo me sentar contra a parede oposta a que estava.
Silêncio.
- Filha? - você chama baixinho. 
- Que foi, pai? - há quanto tempo nos chamamos assim? Não sei. Mas é como se fosse um pai de verdade pra mim.
Você levanta e para na minha frente, olhando pra mim.
- Papai te ama! - você diz, sorrindo. Não contenho mais meu choro, ponho-me em pé também e te abraço com força.
- Obrigada por ser tão perfeito comigo e por conseguir me fazer mais feliz a cada dia que passa. Eu também te amo, muito!
Logo o sinal para o recreio bate, nos sobressaltando e me sobressalto. 
E então, meu despertador toca. Era um sonho. Nada disso foi real, você nunca me abraçou, nunca te olhei nos olhos. Muitos quilômetros nos distanciam, mas você está comigo sempre. Em mente. Em coração. Em alma. E o melhor de tudo, é saber que é de verdade. Lembro-me que é dia 19 de novembro de 2010, já faz um ano que você entrou na minha vida. Sorrindo, pego meu celular e te envio uma mensagem:
"Obrigada por esse ano que se passou, melhor. Que venham muitos outros, eu te amo muito."

Feliz amigo-versário de um ano, meu melhor.

P.S.: Era pra eu ter postado ontem, mas estou sem internet. Por isso só postei hoje.
P.S.²: Obrigada a Tha pela paciência e boa vontade.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Entrei em casa...

Desconfiada. Havia mesmo alguém a me seguir? Não sei ao certo. Poderia ser somente minha imaginação, mas enfim cheguei em casa e me sinto mais segura. Indo até a sala, me sobressalto com um trovão e logo uma chuva pesada começa a cair. O som dela me conforta brevemente. Passo em frente à porta de vidro que tanto adoro e grito: outro trovão, e sua luz ressalta a sombra de um homem na porta. Corro para meu quarto e lá me tranco. Respiro fundo várias vezes em uma tentativa muito falha de me acalmar. Alguém força a porta, ao mesmo tempo em que a energia acaba, me deixando em uma completa escuridão. Procuro algo para me defender, e o melhor que consigo achar é um candelabro que havia sob a cômoda. O estranho consegue abrir a porta, meu coração para de bombear meu sangue. Outro trovão ilumina meu quarto, o estranho aponta algo em minha direção. Congelo e logo suspiro. O que ele aponta é uma lanterna, ele a acende e descubro que o estranho é apenas meu namorado e então corro para abraçá-lo.
- Porque você demorou? - reclamei - achei que havia alguém invadindo a casa!
- Calma, amor. - ele sussurrou, melifluamente - Eu estou aqui, agora.
Não tive tempo para me sentir aliviada, pois então chegou a dor. O que está acontecendo? Já não sinto meu corpo direito, há algo de muito errado! Tentei falar com meu namorado, dizer que eu não me sentia bem, mas minha voz sumiu. Olhei seu rosto e ele sorria. Então percebi o que ocorreu no momento em que a energia voltou. Seu rosto estava distorcido em uma máscara sádica, e em sua mão havia uma faca ensanguentada. A dor que senti, foi de quando ele - o cara que eu amo - afundou aquela faca em minhas costas, rasgando literalmente meu corpo de fora para dentro. Caio de joelhos no chão.
- Porque? - um sussurro sem sentido, agora que já não existe mais forças em mim: não havia motivo.
- Porque você nunca foi boa o bastante para mim. - ele riu, alucinado e acrescentou, antes de se ajoelhar ao meu lado e beijar minha testa - Não se preocupe, vou apagar as luzes... Sei que você não gosta de dormir com as luzes acesas.
E assim, saiu. Gargalhando e se divertindo, deixando-me sangrar até a morte, apenas por "não ser boa" para ele.




Vocabulário:
melífluo adj.

1. Que corre como mel; que destila mel.
2. Fig. Doce; suave; harmonioso.